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Baixo preço afasta o produtor de erva-mate - Destaque News

Economia

18/07/2016 às 15h36 - Atualizada em 18/07/2016 às 15h36

Baixo preço afasta o produtor de erva-mate

Lucas Paixão
Machadinho - RS
FONTE: Correio do Povo

Em Venâncio Aires, Schuck planeja arrancar ervais se remuneração não aumentar | Foto: Otto Tesche / Especial CP

O cultivo se mantém estagnado desde 2014 em Venâncio Aires, principal produtor da região. No entanto, os ervais começaram a minguar em 2011 e apenas houve a estabilização há três anos com a elevação do valor por falta de produto no mercado. Uma das principais reclamações está relacionada ao preço pago ao produtor, que é de R$ 8,50 pela arroba. Há três anos, o valor chegou a R$ 18.



Para o chefe do escritório municipal da Emater, Vicente Fin, os produtores não veem a erva-mate como fonte alternativa de renda porque, nos últimos anos, as chuvas foram normais, sem grandes prejuízos para outras culturas. “Quando há estiagem, nas outras culturas logo ocorrem perdas, mas na erva não, pois é mais resistente”, destaca. O principal argumento para tentar convencer os agricultores a não arrancar os pés é a expectativa de aquecimento nos preços com a possibilidade de vendas para o mercado asiático, equilibrando a oferta com a demanda.



Com pouco mais de 12 hectares de área em sua propriedade na localidade de Palanque, o agricultor Paulo Valino Schuck, 61 anos, pensa em desistir da erva-mate se não houver reação no preço. Afirma que pretende arrancar metade dos pouco mais de 3 mil pés existentes na lavoura ainda este ano, e no próximo o restante para aumentar a produção de aipim e milho. “No ano passado replantei 1,5 mil mudas, mas vou arrancar tudo de novo”, adianta, explicando que a atividade não compensa, pois enquanto as ervateiras pagam R$ 8 pela arroba, ele gasta R$ 2 com o tarifeiro (cortador) e R$ 1 pelo frete. Schuck acrescenta que a situação pode se tornar ainda mais crítica diante das exigências do Ministério do Trabalho para que os produtores assinem a carteira profissional para os trabalhadores diaristas. O cenário em nada lembra a década de 1980, quando o pai dele chegou a comprar um trator à vista com o dinheiro obtido com a atividade. Para Schuck, o plantio iria se viabilizar se a remuneração fosse, pelo menos, de R$ 10 a arroba. Um vizinho dele já arrancou os ervais para o plantio de aipim e tabaco. Schuck, que preside a Associação dos Produtores de Erva-Mate dos Vales (Aspemva), prevê o fim da entidade diante do desestímulo dos produtores.



O diretor executivo do Ibramate, Roberto Ferron, atribui a queda no preço ao grande aumento da produtividade e oferta de matéria-prima, ocasionada pela melhoria no manejo dos ervais, adubação demasiada, plantações abandonadas que voltaram a ser colhidas, consequência da elevação do valor pago pela arroba em 2013. Além disso, as condições climáticas também foram favoráveis para a cultura. Observa que o setor está chegando aos patamares de preços praticados antes de 2012. Ferron teme por um novo ciclo de decadência semelhante ao período de 2009 a 2012, quando foram arrancados 10 mil pés de erva-mate no Estado (25% da área produtiva), o que causou a falta de produto nas indústrias no ano seguinte.



 



 Alto Vale do Taquari aposta no cultivo da erva-mate



Enquanto perde espaço nas lavouras gaúchas para culturas de ciclo mais curto, a produção de erva-mate registra crescimento em pelo menos uma região, o Alto Vale do Taquari. Se em outros polos ervateiros é cada vez mais comum que os produtores arranquem os ervais, o mesmo não ocorre em Arvorezinha e Ilópolis, dois dos principais produtores da planta no Rio Grande do Sul. Entre os fatores que incentivam o plantio está o terreno, acidentado e pedregoso, e a tradição das famílias, que aprenderam a cultivar e manejar a planta. Além disso, os dois municípios possuem um grande contingente de pessoas que vivem na área rural.



Na pacata Ilópolis, com 4 mil habitantes, todas as 800 propriedades rurais cultivam ervais. Em 2010, o censo do IBGE calculava uma área plantada de 5,9 mil hectares no município. Hoje o cultivo abrange 7,3 mil hectares - maior área do Estado -, com uma produção anual de mais de 65 mil toneladas. “Até nos quintais das casas dá para encontrar pés de erva-mate”, brinca o chefe do escritório municipal da Emater, Fabiano Zenere. A produção e a industrialização da planta representam 45% do Valor Adicionado Bruto do município.



O surgimento de novos empreendimentos ligados ao setor demonstra a importância da cultura para esta região. Somente em Ilópolis, 15 novas ervateiras foram instaladas desde o ano passado, segundo a prefeitura. Algumas delas, no entanto, não realizam o ciclo completo, da moagem até o empacotamento. Até 2014, o município contava com 14 empresas. Na região, 21 novos estabelecimentos surgiram no mesmo período, totalizando 59.



Arvorezinha aparece em segundo no ranking estadual, com área de 7 mil hectares e produção anual de 65 mil toneladas, conforme dados do IBGE. “Na região do Alto Vale do Taquari, ao invés dos produtores arrancarem os pés de erva, como acontece em outros polos ervateiros, eles estão plantando ainda mais”, observa o diretor executivo do Instituto Brasileiro da Erva-Mate (Ibramate), Roberto Ferron.



Os terrenos íngremes e acidentados da região tornam mais difícil a implantação de outras culturas, conforme Ferron. Em contrapartida, nos polos ervateiros de Erechim e Palmeiras das Missões, por exemplo, os terrenos são mais planos e a erva-mate perdeu espaço para as lavouras com culturas anuais, como soja, trigo e milho.



Com produtividade média de 10 mil quilos por hectare por safra nos municípios de Ilópolis e Arvorezinha, o polo ervateiro do Alto Vale do Taquari se destaca no Estado pelo diferencial produtivo, tecnológico e gerencial. O diretor executivo do Ibramate explica que os produtores mostram avanços no manejo dos ervais, colheita diária e mensal, introdução de inovação tecnológica e mão de obra especializada, com a profissionalização no trabalho. Na região também há trabalhos por meio da integração entre os agricultores e as indústrias do setor. “A erva-mate é uma planta que possibilita ao jovem permanecer no campo, pois pode proporcionar aporte mensal de receitas financeiras à família”, afirma Ferron.



A tradição no cultivo da erva-mate não foi abalada sequer pela oscilação de preços registrada nos últimos anos. Em 2014 e 2015 houve uma grande elevação nos preços ao produtor e também na gôndola do supermercado. Os valores pagos ao agricultor chegaram a ter um aumento de 300%, enquanto os praticados ao consumidor atingiram a elevação de 200%. Em 2016, no entanto, os preços ao produtor voltaram a cair, ficando abaixo das expectativas. Os produtores atualmente recebem entre R$ 11 e R$ 14 pela arroba de erva-mate, de acordo com a qualidade. Zenere, da Emater, afirma que o valor é superior ao pago em outras regiões em função da qualidade. Explica que os agricultores que usam apenas mão de obra própria conseguem obter lucro. No entanto, muitos precisam recorrer à terceirização do trabalho de limpeza e poda e, nestes casos, o custo aumenta consideravelmente.



Novos usos



O Brasil exporta erva-mate cancheada e moída para mais de 30 países. Apesar da difusão do consumo de formas diferentes, o diretor executivo da Ibramate, Roberto Ferron, afirma que há espaço para crescer mais. Como exemplo, cita os chás, segunda substância mais consumida no planeta entre as bebidas, mercado em que a erva-mate representa apenas 1%. Ele afirma ser necessária maior divulgação, com a conscientização sobre as propriedades medicinais da planta.



Mudança no ranking



No ranking da área plantada com erva-mate, o município de Ilópolis saiu da sétima posição em 1990, com 200 hectares, para a primeira em 2014, com 7,3 mil hectares, de acordo com tabela elaborada pelo Sindicato da Indústria do Mate do Estado do Rio Grande do Sul com dados do IBGE. Em outro quadro comparativo, da quantidade produzida, o salto é maior ainda, da décima posição, com 3,2 mil toneladas, para a liderança, com 59 mil toneladas, nos mesmos anos. Venâncio Aires, que liderava nos dois itens, com 1,3 mil hectares e 30,3 mil toneladas em 1990, caiu para o quarto lugar em área (1,5 mil hectares) e décimo em produção (5,2 mil toneladas) em 2014. Erechim, que era sexto em área (250 hectares) e quarto em quantidade (6,5 mil toneladas), não aparece mais entre os dez maiores dos dois quesitos.


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